11 de dezembro de 2007

E o vento levou.....



O DIA QUE VOEI PRA "TRÁS"

Chegou a temporada da “cebezada” e para quem voa, independente do “equipamento”, é um período de alerta máximo. Para os motorizados sempre existe a possibilidade de um contorno, uma “meia-volta” ou de uma boa acelerada, mas para nós que voamos “roubando” da natureza nossa energia, os CBs são verdadeiros pesadelos.

A rampa de Petrópolis, que há até pouco tempo se imaginava apenas para vôos locais, passou a ser um excelente local para o cross. Cada vez mais asas e parapentes descobrem rotas e paisagens nunca antes voadas. Por isso a frequência ao local tem crescido proporcionalmente as “kilometragens” alcançadas.

Sábado dia 18 de novembro, 10;30h, rampa lotada. Alem da rota discutíamos a possibilidade de algun CB “pipocar” durante nosso trajeto mas até a nossa decolagem não havia nenhum sinal de qualquer desenvolvimento vertical nos pequenos cúmulos formados.



decolando de Petropolis


No decorrer de meu vôo, com 60 km voados, cheguei no fundo do vale que leva para Friburgo observando para trás um CB que explodia em Teresópolis. Como já havia passado por ali, e sua direção derivava contraria a minha, ele não me preocupava.

BELEZA PERIGOSA

Este ponto é crucial para continuidade do vôo, é o limite, ou se tem altura para cruzar um trecho de cordilheiras ou se volta para a planície. Ali não existe pouso, eles estão no minimo a 15 km dali.

As térmicas evoluíam constantes mas não com a potencia necessária que me permitisse esperar muito pois um outro CB derivava em minha direção. Caso não ganhasse com rapidez existia a possibilidade de ficar “espremido” entre ele e o fundo do vale. Resolvi voltar na direção da planície e consequentemente mais para perto do CB. Imaginava existir tempo suficiente para um pouso seguro. Pela sua velocidade e distancia pensava não haver nenhum problema pois ele estava bem a minha esquerda.





MEU ERRO, ESPERAR DEMAIS!!!

Neste momento o que mais começou a me preocupar era uma “bruma” que havia se formado na minha frente, temia ser uma camada de vento forte a baixa altura, torcia para estar errado. Na duvida resolvi acelerar ainda mais e correr para o primeiro pouso que encontrasse. A uns 100 metros do chão cheguei na tal “bruma”, infelizmente eu estava certo, começou o terror. ....

Não sei calcular com precisão, mas o vento ultrapassava os 80 km/h e por estar num vale, ele aumentava pelo efeito “venturi”. Para ser ter uma idéia do problema eu estava todo caçado, barra no joelho e mesmo assim a asa andava para trás com muita velocidade. Já não me preocupava onde pousar, era irrelevante, até porque não tinha controle sobre isso. Os minutos passavam e o vento e turbulência só aumentavam. Eu só pensava em tentar manter a asa aproada ao vento.




minha adrena na visao do artista e piloto Fabio Kern


Nada mais irreal do que voar pra trás, subindo e com muita turbulência. O pior nesta situação é que quanto mais se acelera mais existe a possibilidade da asa tender. Não demorou e ela começou a fazer um “dolphin fly” de ré e o pior, ela teimava em continuar subindo. Em uma outra situação eu até deixaria, ganharia altura e correria de cauda, mas ali era impossível, atrás apenas uma enorme cordilheira. Seria suicídio se não desse certo.


Depois de uns 10 minutos brigando com a asa e com o braço “queimando” de tanta força, uma turbulência maior me cuspiu de cauda, achei que ia explodir num pequeno morrote. Consegui, em ato continuo, aproar novamente ao vento mas infelizmente continuava de ré, sem controle e subindo.


a rota da roubada após Cachoeira de Macacu

Via casas, árvores, rio, fios, postes, cercas, arados, vacas, carros e tudo mais passando na direção contraria. Não estamos acostumados a este tipo de paisagem, parecia um filme passado ao contrario, a sensação é a pior possível.


Apenas três coisas poderiam me ajudar, manter a frieza, contar com a sorte e, principalmente, a mão de alguém lá de cima. Comecei a falar pra mim mesmo que eu iria colocar a asa no chão com segurança, não admitia me machucar. Pensava, na pior das hipóteses, uma ligação para o Nenê com uma vasta relação de peças a serem trocadas. Nós voadores somos eternos e incorrigíveis otimistas, mesmo numa situação critica como aquela eu imaginava, caso quebrasse, em que asa eu voaria no dia seguinte mas me machucar, nunca!!!





A adrena era enorme, nestas horas se pensa em tudo. Como eu estava com muito “tempo” acabei comparando situações passadas. Nossa, como foi tranquila a capotagem que eu havia sofrido a alguns anos. Virar ao contrario é “café com leite” perto disso. Até porque na capotagem você não espera e quando vê já esta de páraquedas aberto em cima de uma árvore, é tudo muito rápido, ali não, o tempo para, foram intermináveis 15 mts.


NA MAO DE DEUS


Em meio a uma forte ascendência ela caiu numa enorme descendência, piquei tudo que podia e a asa mergulhou forte andando para trás, nao me importava muito com o resultado, eu queria o chao. Em milésimos de segundo estava chapado num arado, sem me mexer, agarrado aos cabos do bico e milagrosamente inteiro . O drama que pensei terminado ainda tinha mais um capitulo pois, com aquela vento irreal comecei a ser novamente levantado. Eu tinha noção exata que era questão de poucos segundos e estaria realizando nosso velho sonho que é decolar do plano, parado e sem motor. Só me faltava esta.....


ADRENA SEM FIM


Pra minha sorte no exato momento que bati no chao alguns “anjos”cortadores de cana, seis no total, correram para me ajudar. Três pessoas não conseguiriam segurar a asa. Para quem viu deve ter sido um espetáculo adrenalisante pois vários carros e uma ambulância chegaram para verificar o que sobrou “daquilo” que o vento levava. Incrível, mas não houve nenhum arranhão em mim ou na asa.





Mais tarde chegou meu resgate que trazia o Carlinhos Niemeyer que também, meio “arrepiado”, relatava do raio que caprichosamente resolveu cair e incendiar uma árvore ao lado de sua asa.
Praticamente todos que voaram neste dia tiveram “eventos” para contar mas felizmente inteiros e com muito mais experiências.


“CB NO AR PILOTO NO BAR”............ Tão velho quanto o ditado é a sabedoria que ele traduz.


Click aqui para detalhes completos deste voo

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Abraços e bons voos
Nader